quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Filosofia de Botequim

Então, de uns dias pra cá ando meio filósofa.
Depois de ler o espetacular Mil platôs de Deleuze e Guatarri, meu mundo mudou.
As coisas adquiriram aspectos diferenciados, e certos conceitos retrógrados caíram por terra.
Descobri que nada é absolutamente verdade ou mentira. Isto depende do ponto de vista. Todos somos errados e certos ao mesmo tempo, isto depende quem é o beneficiado e o prejudicado.
Assimilei também que o conhecimento não é único; cada um o molda de acordo com suas vivências pessoais, com a maneira como enxerga a vida e com as pessoas que o cercam. (Talvez aí esteja a explicação para a formação da personalidade... Mesmo irmãos, criados da mesma maneira são diferentes porque vêem paisagens diferentes da vida...)
Nada no mundo é infinito. Nem o universo o é, porque as idéias, estes seres mutáveis seriam??
Tudo é perecível. Da carne humana ao pensamento crítico.
Felicidade é momento.
Amor é convenção, necessidade do momento.
Vida é tudo e é nada.
O que vou fazer com tudo isso que apreendi?? Nada. Tudo isso simplesmente torna minha vida mais prazerosa.

Você devia tentar...

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Depois de um tempo de infertilidade mental e de férias do blog, aqui estou, renascendo das cinzas, como uma fênix.
Passei por algumas coisas bem traumáticas, cometi erros terríveis, fiz péssimas escolhas, quebrei minha cabeça tentando resolver vários quebra-cabeças, e no fim das contas, fiquei sozinha.
Sozinha nos meus pensamentos e ideais. Não sozinha de amigos. Isso nunca! Graças à Deus, os tenho aos borbotões, e posso contar com sua ajuda sempre.
Mas sabe quando você se sente sozinho por dentro? Quando simplesmente falta paz na tempestade do seu coração? É assim que me sinto. Muitas coisas misturadas, tantas que já não sei se existe certo e errado.
Vai saber o que pensar da vida... Ela é tão complexa e infinita, que descobrir o que ela é ou representa é o caos.
Prefiro deixar que os dias corram e as coisas aconteçam...

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Vidas guiadas pelos trilhos do trem (Parte III)

Casamento de Ramão e Noêmia Maxwell

Em 1972, o conto de fadas dos quatro irmãos foi bruscamente interrompido. Marcado, novamente, pelos trilhos. Por causa de problemas no coração, Noêmia então com quatro filhos, estava internada no hospital de São Gabriel. Ângela e os irmão aguardavam o retorno da mãe na casa de vizinhos quando foram surpreendidos pela visita do tio Raul, chefe dos trens da estação, junto com a esposa. A surpresa logo virou alegria quando os tios disseram que ia leva-los para a cidade. “Eles nos buscaram, nos disseram que estavam nos levando pra ver a mãe. Podiam ter nos dito que ela estava mau, que tinha ido pro céu. Mas, não. Disseram que nós estávamos indo ver a mãe. Nós fomos. E vimos ela morta.” Na época, os corpos eram levados para o velório e o enterro em um carro especial, com rodas de vagão, que funcionava a vapor como os trens. Ângela, na época com 8 anos lembra que esses carros eram muito parecidos com ambulâncias. “Nós fomos levar o corpo da mãe de São Gabriel pra Cacequi e o meu pai não foi. Ele não teve forças pra ver a esposa morta.” Durante todo o percurso, os moradores da localidade vinham até a estrada para ver quem ia ser velado. “Aquele povo todo parado na beira dos trilhos olhando pra gente enquanto o cortejo fúnebre ia passando. Eu e meus irmãos na frente, e o corpo da mãe atrás”.
Ramão, muito fragilizado pela perda da esposa e com a rotina extensa do trabalho na linha férrea, deixou os filhos aos cuidados dos avós Margarida e José Rodrigues, em Cacequi. Em 1976 a família se mudou para Cachoeira do Sul. Ramão então foi buscar os filhos, para voltar a morar com ele, mas Ângela, então com 12 anos ficou para ajudar e cuidar da avó quando ela adoecia. Vivendo longe do pai, dos irmãos e dos trilhos, que por tanto tempo estiveram presentes, a pequena jovem tinha muitas dúvidas sobre o seu futuro. “Será que um dia eu vou ser mãe? Eu ficava pensando” lembra a dona de casa, emocionada.
“O pai lá em Cacequi ficou 10 anos viúvo, quando eu ia visitar éramos só nós e ele. Depois casou novamente, com uma viúva também. Sempre chamei ela de Dona Geni. Ela foi muita boa, ela levantou o pai, fez ele voltar a acreditar na vida. O dois ficaram 19 anos juntos.”  Em Janeiro de 1996, a mãe de Ramão faleceu em Cachoeira do Sul. Seis meses depois, foi a vez de Geni. Sofrendo de asma, quando nervoso Ramão sentia uma dor aguda no peito e novamente não teve força para acompanhar os filhos na despedida das únicas pessoas que, por um breve período, assumiram o posto da falecida mãe.
Em 1984, Ângela conheceu em um baile de Cachoeira do Sul o jovem Erlei, aquele que seria o pai de seus tão sonhados filhos. “Eu vi ele dançando, dando uns pulinhos, igual um cabritinho. Quando ele perguntou se eu queria dançar, eu fui pular também. Pulei, pulei, pulei...”.  E estão pulando juntos até hoje. Dois anos depois, em 19 de Julho de 1986 se casaram. Logo em seguido tiveram o primeiro filho, Cristiano Maxwell da Silva, em abril de 1987. “Meu filho com dois meses e 17 dias fez a primeira viagem de trem”, lembra Ângela, com olhar saudoso e emocionado. “Minha segunda filha, Leticia, nasceu em 1995 e nunca andou de trem.” Os vagões com passageiros circularam pela última vez em 2 de Fevereiro de 1996.
Mesmo após a aposentadoria, em 2001, Ramão jamais deixou de falar sobre os trilhos, cheio de orgulho pelo pedaço da história gaúcha que ajudou a construir com as próprias mãos de apenas nove dedos. Aos oito anos de idade, enquanto olhava encantado para um avião (desde já, era apaixonado pelos meios de transporte) que cortava o céu de Cacequi, a porta de madeira da casa modesta bateu em seu dedo polegar. Por falta de atendimento médico, o dedo foi amputado posteriormente. Viúvo pela segunda vez, Ramão foi levado pela filha Nara para residir com ela em Porto Alegre. Mas, o desejo dele era morar com o filho homem. “Um dia a Nara foi na igreja e o pai pegou as coisas dele e se mandou. Quando ela chegou, nem rastro do pai”. Foi em Canoas, na casa do tão amado filho que Ramão faleceu aos 69 anos com uma forte pneumonia que complicou o quadro de enfisema pulmonar, em 2006.
Ângela recorda com saudade do tempo em que os trilhos do trem estiveram presentes em sua vida. Uma época de muito esforço, manchada por vários momentos dolorosos. “Eu adoro andar de trem. Até hoje se pudesse andaria.” Hoje, toda a malha ferroviária do Estado está nas mãos da concessionária ALL - América Latina Logística, que já não faz mais transporte de passageiros. “Será que aquela estrada de ferro ainda está lá? Um dia eu estava pensando como fazer pra chegar lá. Esse lugar deve estar lá, junto com as minhas lembranças.” Cacequi teve o desenvolvimento impulsionado pela rede ferroviária, hoje o município tem cerca de 16 mil habitantes. Inaugurado em 2001, o Centro da Memória Ferroviária, na extinta Estação Cacequi foi criado com o objetivo de guardar fragmentos desta história. O acervo do museu inclui desde indumentárias dos colonizadores e pioneiros até elementos da flora e da fauna, peças artísticas, livros-ponto com a hora de chegada e saída dos trabalhadores e objetos de uso pessoal dos moradores da época. Um pedaço dos Maxwell que se mantém vivo e a salvo do esquecimento.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Vidas guiadas pelos trilhos do trem (Parte II)

Veja o inicio da reportagem clicando aqui


Na casa humilde, em Lindolfo Waick pequeno distrito de São Gabriel, Ramão era esperado pela esposa Noêmia e pelos quatro filhos. Ângela, Nara hoje com 46 anos, Vânia, 44 e Renan, 48. É daquele vilarejo que Ângela guarda as recordações mais nítidas de sua infância. “O pai trabalhou por todo o Rio Grande do Sul. Eu nasci em Cacequi e fui registrada em Erexim. E eu nem conheço Erexim. De todos esses lugares, eu me lembro mesmo de Lindolfo Waick. Não lembro dos outros, só sei que nos mudávamos muito”.
Enquanto o país digeria o golpe de estado que encerrou o governo do presidente Jango, iniciando um dos períodos mais sangrentos da história brasileira, os Maxwell viviam alheios em meio à linha férrea. “Eu gostava daquela época. A gente dava as mãos e seguia caminhando por cima dos trilhos. Ia e voltava. O brinquedo da gente naquela época era pular corda, brincar de mancha... E a gente também pulava vagão”, conta Ângela, por um breve momento envergonhada pelas travessuras de sua infância. O pai, nas poucas vezes que encontrava tempo para as crianças os distraia com uma paixão que o acompanhou por toda a vida: o carteado. “Só um tal de jogo de truco que meu pai jogava no trabalho, aquele jogo ele não ensinou pra nós. Porque era um jogo grosseiro, tinha que dizer uns nomes feios, esse jogo é pra homem, ele dizia”.
Antigo trole da estação
Nos anos de ouro da ferrovia, o local reunia importantes autoridades nacionais e estaduais num dos mais famosos restaurantes do Rio Grande do Sul. O restaurante da Estação Cacequi recebeu personalidades como Getúlio Vargas, João Goulart e Leonel Brizola. O local fervilhava pelo intenso fluxo de pessoas que aguardavam o momento da baldeação de um trem para o outro. Mas, não foi o prestígio que tornou a estação inesquecível para os Maxwell. Além do trabalho árduo e das pequenas travessuras, os trilhos marcaram a vida da família em momentos de alegria e tristeza. Em 9 de Junho de 1967, grávida da filha caçula, Noêmia esposa de Ramão, começou a sentir as dores do parto na pequena casa do interior. Em Lindolfo Waick não existia nenhum posto médico, quando a população precisava de atendimento “tinha que colocar a pessoa correndo em cima do trole e lascar para São Gabriel” lembra Ângela, rindo das dificuldades da época. “Fomos eu, uma vizinha que depois se tornou madrinha da minha irmã e quatro homens que ajudaram a colocar a mãe no carrinho.” Quando o trole se aproximava da cidade, todos perceberam que não havia mais tempo. Vânia queria nascer. “Tiveram que tirar o trole de cima dos trilhos, porque podia vir um trem! Imagina se vem um trem e mata todo mundo?” A lua cheia acompanhou do céu estrelado a chegada de Vânia Maxwell ao mundo. Após o parto, o trole foi recolocado nos trilhos e seguiu caminho, enfrentando a noite fria de final de Outono a caminho do hospital. “Ela nasceu com 900 gramas, no frio, na rua. E viveu. Tem quatro filhos hoje. É a mais corajosa de nós”, fala com orgulho Ângela sobre a irmã, que hoje reside em Pelotas e trabalha como enfermeira...

(Continua)

terça-feira, 5 de julho de 2011

Vidas guiadas pelos trilhos do trem

A história da terceira geração da família Maxwell, imigrantes ingleses que chegaram ao Brasil por volta de 1880, segue a linha da extinta Viação Férrea do Rio Grande do Sul. Trilhos concertados pelas mãos de Ramão Maxwell, a partir de 1960 quando ele começou a trabalhar na Estação Ferroviária Cacequi, inaugurada em 1890. Seus três irmãos também trilharam a vida seguindo a linha férrea. Raul era chefe de trem. Romeu virava a chave para o trem passar. E Moisés era artífice da rede, o mecânico dos vagões. Todos trabalharam em Cacequi, uma região inicialmente povoada por tribos indígenas. Daí vem o nome do município que significa "Água do Cacique".

No Rio Grande do Sul, a partir de 1905, as ferrovias foram unificadas e se tornaram a VFRGS - Viação Férrea do Rio Grande do Sul. Por vários anos, até 1907, a estação Cacequi foi ponta de linha da ferrovia. Dessa estação saíam trens para Bagé, Rio Grande e Santana do Livramento. Era um importantíssimo centro de baldeação entre os entroncamentos que possuía. A baldeação era feita com todos os passageiros saindo de um trem e entrando no outro. Cada um carregando as próprias bagagens. Em 1913, o núcleo de Cacequi, junto à estação ferroviária, tinha 50 casas e 200 habitantes e iluminação a querosene. E acima das águas do Cacique está localizada a maior ponte ferroviária da América Latina, construída em 15 de Novembro de 1907. Toda metálica a ponte tem quase mil e quinhentos metros de comprimento. Uma das paisagens mais lindas do Rio Grande do Sul, local que traz impregnado em si momentos históricos tanto para o desenvolvimento do estado, quanto para a família Maxwell.
 “Eu to contando pra ti e parece que estou vendo isso tudo”, afirma a dona de casa Ângela Maxwell, 47 anos, que cresceu vendo o pai, Ramão trabalhando na estação. Era uma rotina pesada. Às 6 da manhã ele saia de casa, junto com o sol. “Ele usava botina e macacão. Colocava capote quando estava chovendo, quando não tinha chuva, não colocava. O capacete tinha escrito o nome dele na frente. Era bem parecido com roupa de bombeiro, só que amarelo” lembra Ângela.  Na estação, Ramão encontrava os colegas e ia trabalhar no concerto de linhas danificadas em um trole (espécie de carro, impulsionado por alavancas manuais). “E essa era a rotina. Todo o dia eles iam de trole. Mais ou menos 40 homens. Eles iam naqueles carrinhos linha a fora, para qualquer lugar que tivessem que arrumar trilhos”. Quando o sol estava se pondo era hora do pai retornar para a família...

(Continua)